É fácil perceber a enorme desarrumação, em termos psíquicos e familiares, que o atual mundo do trabalho causa, em especial nas pessoas que vem de uma perspectiva um pouco mais estruturada e sólida de mundo, de contexto ou realidade.
No atendimento a executivos e às suas famílias, em especial no caso de mobilidade e expatriação, percebo que o suporte psicológico tem sido fundamental, para que durante este difícil processo de aculturamento, possam ser mantidas as raízes históricas, e as condições que garantem a estrutura e o adequado funcionamento psíquico, ao mesmo tempo em que novas construções vão sendo elaboradas para acolher a nova realidade que se apresenta.
Conference and crowd concept. Group of young businesspeople on abstract office city background. Double exposure
De forma muito suscinta, na abordagem da psicologia analítica, ou complexa, o processo psicoterápico ou analítico consiste em levar o paciente a reconhecer e diferenciar os aspectos conscientes e inconscientes de sua psique, para que, em respeito à sua realidade interior, única e original, possa encontrar sua forma de expressão e lugar no mundo.
A este processo, chamamos de Individuação.
Para apoiar o indivíduo neste percurso interno, porém, o analista ou psicólogo não pode dar as costas ao mundo externo, e suas complexidades. Pois por um lado, e em certa medida, os aspectos da identidade vão se constituindo no contato com o mundo. E o mundo está muito complexo.
Recentemente Jamais Cascio, antropólogo e futurista trouxe um novo modelo para nos ajudar a entender, de forma simples, as principais características do mundo em que vivemos.
Para ele, a categoria de atributos que melhor organiza os vários fenômenos sociais na atualidade pode ser descrita pelo anacrônimo BANI: Brittle (frágil), Anxious (ansiosa), Nonlinear (não linear) e Incomprehensible (incompreensível).
Nos atendimentos clínicos, e, também, nos processos de orientação de carreira, tenho utilizado este modelo teórico para criar algum contorno possível para esta realidade, e levar o cliente a identificar os desdobramentos de cada um destes atributos em sua vida pessoal, familiar e profissional.
Este primeiro passo, e mais racional, digamos, é a partida para um alívio de curto prazo para alguns conflitos, sofrimentos e sintomas psíquicos.
Ainda de forma racional, a segunda parte do processo, consiste em mobilizar os aspectos internos para que o sujeito possa dar as respostas adequadas a cada um destes atributos.
Assim, para a fragilidade do ambiente, desenvolve-se a resiliência pessoal. Para a ansiedade, lança-se mão da empatia e atenção plena. Quando o conflito está relacionado à não linearidade, o desenvolvimento de uma perspectiva mais ampla sobre o contexto é estimulado. Por fim, para a incompreensibilidade, a entrega e humildade podem fazer com que uma comunicação mais ampla e inclusiva possa ser desenvolvida.
Didaticamente falando, o processo pode parecer simples e rápido, mas trata-se na verdade de uma trajetória algumas vezes longa, que envolve não apenas os aspectos racionais, que comumente são mais desenvolvidos, mas também os aspectos irracionais e desconhecidos da psique.